Ana, 34 anos, acorda numa manhã de sábado com uma sensação de vazio persistente. Após um café apressado, ela pega o celular e abre seu aplicativo de compras favorito. Um item em oferta chama a atenção, um fone de ouvido de última geração com 50% de desconto. O clique é instantâneo e, em segundos, a compra está feita. Um alívio momentâneo invade seu peito. Porém, logo depois, a sensação desaparece. Ao longo do dia, enquanto espera outras entregas chegarem, ela realiza mais compras para preencher aquele espaço interno que parecia doer. E assim passa a semana dela: comprar, sentir prazer, depois culpa e arrependimento, e comprar novamente. No extrato bancário, as marcações em vermelho se multiplicam. Em casa, caixas se empilham. No fundo, há uma dívida crescente que Ana tenta ignorar.
O que Ana vive não é apenas gastar demais, mas um padrão observado em pessoas com oniomania, também conhecida como transtorno de compras compulsivas, um comportamento caracterizado pelo impulso repetitivo, incontrolável e emocionalmente intenso de comprar, mesmo quando não há necessidade real de adquirir novos produtos.
O que é oniomania e porque ela importa
O termo oniomania tem origem grega (oné — comprar; mania — loucura) e é utilizado na psicologia para descrever esse padrão compulsivo de consumo que vai além do simples hábito de comprar. Trata-se de um transtorno do controle de impulsos, cuja expressão se manifesta numa necessidade quase irresistível de adquirir itens, muitas vezes supérfluos, repetidos ou guardados sem uso, e que frequentemente causa sofrimento emocional e prejuízo financeiro significativo.
Pesquisas apontam que esse comportamento pode afetar entre 2% e 8% da população, com maior prevalência entre mulheres e em contextos nos quais o consumo está ligado a emoções e à busca de prazer imediato.
Quando gastar vira vício
Para muitas pessoas como Ana, comprar não é apenas adquirir bens, é uma forma de resposta emocional a sentimentos negativos como ansiedade, solidão, frustrações ou vazio existencial. A compra momentaneamente ativa centros de prazer no cérebro, oferecendo alívio rápido, mas temporário. Logo após, sentimento de culpa, arrependimento e preocupação com o orçamento retornam, impulsionando uma nova rodada de compras, num ciclo difícil de interromper.
Esse padrão tem muito em comum com outros comportamentos compulsivos e pode ser encontrado em relatos de pessoas que perceberam que, mesmo com bom emprego e vida aparentemente estável, seus gastos descontrolados criaram uma “bola de neve” de dívidas e ansiedade, dificultando a realização de projetos ou a segurança financeira no longo prazo.
O impacto na vida financeira e emocional
A oniomania pode comprometer seriamente a vida financeira de um indivíduo ou de uma família. Além de consumir recursos e gerar endividamento, pode criar conflitos interpessoais, resultar em vergonha e isolamento social, e levar a sentimentos persistentes de culpa ou inadequação. A necessidade de ressoar emoções através de compras pode mascarar problemas mais profundos que exigem atenção, como ansiedades, baixa autoestima, depressão ou outros problemas de ordem psíquica. Quando o gasto compulsivo interfere na qualidade de vida, a solução é procurar apoio profissional a fim de romper o ciclo vicioso.
Reflexões para educação financeira
Quando falamos de educação financeira, não podemos nos limitar apenas a ensinar sobre orçamento, poupança ou investimentos. É fundamental compreender os comportamentos que moldam nossas decisões de consumo. Perguntas como “por que eu quero fazer essa compra?” ou “estou comprando para suprir uma necessidade real ou um desejo emocional momentâneo?” ajudam a trazer clareza e consciência aos gastos.
Educar-se financeiramente também significa aprender a identificar gatilhos emocionais e buscar estratégias que imponham limites saudáveis ao consumo, como:
- Revisar hábitos de compra com base em objetivos financeiros claros;
- Estabelecer um orçamento realista e monitorar regularmente despesas;
- Praticar autoconsciência sobre situações que despertam impulsos de gastar.
Um convite à reflexão
O consumo é uma parte natural da vida moderna, mas, quando ultrapassa os limites do controle racional, pode se tornar um obstáculo à segurança financeira e ao bem-estar pessoal. Entender a linha que separa um hábito de consumo de um comportamento compulsivo é um passo importante, não apenas para equilibrar as finanças pessoais, mas para fortalecer a relação entre mente, dinheiro e satisfação genuína na vida.
Ao reconhecer os sinais, refletir sobre as motivações por trás das compras e buscar suporte quando necessário, cada um de nós pode trilhar um caminho mais consciente e sustentável com seus recursos, protegendo seu presente e seu futuro.
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1 respostas em "O gatilho invisível: uma história sobre oniomania e finanças pessoais "
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